O Município de Uberlândia (MG) homologou em 29 de julho de 2026 três itens de cloreto de sódio do mesmo pregão a preços por litro que variam 3,57 vezes entre si. A bolsa de 100 ml ficou em R$ 21,40 o litro, a de 250 ml em R$ 11,72 e a de 1000 ml em R$ 6,00. É soro fisiológico nos três casos.
O que o município comprou
O processo é o Pregão Eletrônico nº 90236/2026, processo administrativo 36369, número de controle PNCP 18431312000620-1-000265/2026, publicado pela unidade MMG-Secretaria Municipal de Administração de Uberlândia (CNPJ 18.431.312/0006-20). É Sistema de Registro de Preços, critério de menor preço, com amparo na Lei 14.133/2021, artigo 28, inciso I.
O objeto, na redação do próprio órgão, é a "aquisição de medicamentos de uso humano (cloreto de sódio, dobutamina e outros), que serão utilizados pelos pacientes atendidos na Rede Municipal de Saúde de Uberlândia". Os três itens de cloreto de sódio têm unidade de fornecimento em bolsa de 100 ml, 250 ml e 1000 ml, e os três trazem o código NCM 30049099, da posição 3004 da nomenclatura, de medicamentos em doses. O cloreto de sódio deste pregão é soro fisiológico em apresentação hospitalar.
Somados, os três itens dão 3.330.000 bolsas: 1.800.000 de 100 ml (item 1), 1.500.000 de 250 ml (item 3) e 30.000 de 1 litro (item 2). São 585.000 litros de soro registrados para a rede municipal de saúde.
De onde vem a diferença de preço por litro
Da divisão dos valores unitários homologados pelo volume de cada bolsa. O item 1 fechou a R$ 2,14 a bolsa de 100 ml, o que dá R$ 21,40 o litro. O item 3 fechou a R$ 2,93 a bolsa de 250 ml, ou R$ 11,72 o litro. O item 2 fechou a R$ 6,00 a bolsa de 1 litro, e aí o preço da bolsa é o preço do litro.
A conta é aritmética direta sobre os números publicados. O que o PNCP não traz é justificativa: não há, nos dados abertos consultados, nenhuma explicação para a bolsa pequena custar 3,57 vezes mais por litro que a grande. Bolsa menor tem mais embalagem por mililitro e é a apresentação usada em dose única, mas isso não está registrado em nenhuma fonte deste processo, então fica como pergunta, não como resposta.
Quem levou o soro
Os itens 1 e 3 ficaram com a FARMACE - Indústria Químico-Farmacêutica Cearense Ltda (CNPJ 06.628.333/0001-46): R$ 3.852.000,00 pelas 1.800.000 bolsas de 100 ml e R$ 4.395.000,00 pelas 1.500.000 de 250 ml. O item 2, das bolsas de 1 litro, ficou com a Laboratórios B. Braun S.A. (CNPJ 31.673.254/0010-95), por R$ 180.000,00. As três homologações são de 29 de julho de 2026.
Quanto ficou abaixo da estimativa
O município estimava R$ 11.476.500,00 pelos três itens de soro e homologou R$ 8.427.000,00. A bolsa de 100 ml, estimada em R$ 3,17, fechou em R$ 2,14, 32,5% abaixo. A de 250 ml, estimada em R$ 3,70, fechou em R$ 2,93, 20,8% abaixo. A de 1 litro caiu de R$ 7,35 para R$ 6,00.
Na compra inteira, que tem dez itens, o valor total estimado é R$ 14.669.585,00 e o valor total homologado é R$ 10.894.968,50, uma diferença de R$ 3.774.616,50, ou 25,7%. Só o soro responde por 77% do valor homologado da compra.
Quem mais ganhou no mesmo pregão
Sete empresas dividiram os nove itens que tiveram vencedor. Três delas são de porte ME e levaram quatro itens: a Oeste Sul Cirúrgica Ltda (CNPJ 61.828.536/0001-94) ganhou a dobutamina cloridrato (R$ 55.900,00) e a ondansetrona cloridrato (R$ 19.948,50); a Octo Fármaco Ltda (CNPJ 29.404.097/0001-80) ganhou a nistatina (R$ 18.420,00); a Sinergia Farmacêutica Ltda (CNPJ 35.186.943/0001-35) ganhou a noretisterona, um lote de R$ 3.600,00.
Os outros dois itens homologados foram para empresas de porte "Demais": 2.700.000 comprimidos de hidralazina para a Mediton Farmacêutica Ltda (CNPJ 29.614.830/0001-90), a R$ 0,485 cada, R$ 1.309.500,00 no total; e 9.000.000 de comprimidos de levotiroxina sódica para a Sulmedic Comércio de Medicamentos Ltda (CNPJ 09.944.371/0003-68), a R$ 0,0738 cada, R$ 664.200,00. No mesmo edital, uma indústria leva R$ 3,8 milhões e uma ME leva R$ 3.600,00.
O item que ninguém quis
O item 7, 3.000 comprimidos de medroxiprogesterona acetato, com valor total estimado de R$ 7.710,00, ficou deserto: a situação registrada é "Deserto", o campo de resultado é falso e o endpoint de resultados devolve HTTP 204. Ninguém apresentou proposta. É o único dos dez itens sem vencedor, e a fonte registra a situação, não o motivo.
O edital ficou 16 dias com propostas abertas: publicado no PNCP em 15 de junho de 2026, com encerramento do prazo em 1º de julho de 2026 às 09:00. Quem não acompanha o portal todo dia não vê passar.
O que os dados não respondem
Registro de preços não é compra fechada. A ata garante o preço, e a compra efetiva depende da demanda da rede de saúde. Os endpoints do PNCP consultados em 4 de setembro de 2026 não publicam empenho nem contrato deste processo, então não dá para afirmar que o município comprou, recebeu ou pagou qualquer parte disso.
Também não dá para saber quantos fornecedores disputaram cada item nem quantos foram desclassificados: os endpoints de resultado publicam apenas o primeiro colocado.
E há uma divergência dentro do próprio PNCP. A soma dos valores homologados item a item dá R$ 10.498.568,50, enquanto o cabeçalho da compra registra R$ 10.894.968,50 de valor total homologado. São R$ 396.400,00 de diferença sem explicação nos dados abertos. O número usado acima é o campo oficial do cabeçalho.
Nada aqui é acusação de sobrepreço ou irregularidade. Não houve comparação com preço de mercado farmacêutico, nenhum órgão de controle questionou o certame até 4 de setembro de 2026 e a busca na web nessa data não localizou nenhuma cobertura de imprensa sobre o pregão. O que existe é um processo público, com dez itens, três preços por litro para o mesmo líquido e um item que ninguém foi buscar. Tudo isso estava aberto no Portal Nacional de Contratações Públicas desde 15 de junho de 2026.